A Gripe e o Mercado

Revista Ámbito Farmacêutico.

Preocupação com o contágio do vírus H1N1 fez. Disparar as vendas de antissépticos e máscaras. Antigripais também obtiveram procura expressiva.

Por Marcelo de Valécio

Produtos antes expostos com pouco destaque nas farmácias, como o gel antisséptico, ou difíceis de encontrar, como as máscaras respiratórias, ganharam espaço nas gôndolas; antigripais também se sobressaem. A exemplo do que ocorreu em outros países onde o vírus H1N1 se espalhou, a gripe suína mudou o comportamento dos brasileiros. O caso mais emblemático é o do gel antisséptico (ou álcool gel), usado principalmente para higienização das mãos, que viu sua procura quintuplicar na maioria das farmácias do País. Seu uso foi impulsionado pela recomendação do Ministério da Saúde de que lavar as mãos frequentemente é uma das atitudes que ajudam a evitar o contágio pelo vírus da gripe suína. Contudo, alguns médicos advertem que o produto é eficaz para evitar o contágio pelo vírus mas não imuniza a pessoa de contrair a gripe. Sendo assim, deve-se evitar contato direto com pessoas infectadas, procurar ambientes bem ventilados e buscar auxílio médico em caso dos sintomas típicos da gripe H1N1 (febre acima de 38º, tosse, dores de cabeça, nos músculos e nas articulações e dificuldade para respirar).

Comum na Europa e nos EUA, o uso do gel antisséptico nunca pegou no Brasil, ficando restrito a hospitais e consultórios médicos e odontológicos. Os brasileiros sempre resistiram a trocar água e sabonete para lavar as mãos por outros produtos. Mas a gripe suína vem mudando isso e o uso do gel está se tornando uma prática corriqueira no País, por ser uma forma rápida e eficiente de higiene. É possível que haja até uma mudança de comportamento na população, como ocorreu quando todo mundo “aprendeu” a economizar energia elétrica com o apagão de 2001. “Ainda que a demanda possa reduzir, a higienização das mãos com o antisséptico em gel deve permanecer para a grande maioria das pessoas. O maior exemplo estará arraigado nas primeiras gerações, em virtude de as escolas passarem a incluir o hábito na orientação de seus alunos”, avalia Fabiana Tithauer, sócia-diretora da Doctor Clean. De fato, as instituições de ensino têm estimulado os alunos a usarem o gel como forma de evitar a exposição ao vírus. “Vira hábito, muitos já levam o gel na bolsa, junto com a escova de dentes e o lenço de papel.” Para a gerente de marketing e vendas da divisão de cuidados pessoais da 3M do Brasil, Paula Abreu, o nível das vendas atingido pelo segmento de álcool gel não deve se sustentar, mas dificilmente voltará a patamares anteriores à pandemia. A executiva afirma que está difícil atender à alta demanda do varejo, mas ressalta que a 3M se esforça para cumprir os prazos e quantidades. “É possível que as vendas tripliquem em comparação ao ano passado”, conclui.

Muitos fabricantes do gel antisséptico contabilizam crescimento de até 500% nas vendas, sendo que alguns tiveram de terceirizar a produção para poder atender à forte demanda iniciada no segundo trimestre. Poucas vezes a Valmari Dermocosméticos, fabricante do gel Higiemari, criado há quase uma década, viu um crescimento tão expressivo nas vendas do produto. Segundo Silvestre Mendonça de Resende, diretor da empresa, de julho para agosto houve incremento de 500% na procura do gel, tanto das embalagens de bolso (50 ml), quanto econômicas de 290 ml. Já a Doctor Clean, uma das líderes na fabricação do gel antisséptico, buscou apoio nos fornecedores para atender aos pedidos extras. “Contratamos mais fornecedores ligados a algumas etapas da produção para dar suporte ao crescimento da demanda”, afirma Fabiana, complementando que a empresa continuará investindo enquanto houver a necessidade de mercado. “O aumento do consumo de produtos de higiene para as mãos começou em meados de maio, porém o mais significativo está acontecendo no início do segundo semestre. As vendas triplicaram nos últimos dois meses.” Quem também experimenta ritmo forte de crescimento é a Hi Clean, que viu suas vendas aumentarem mais de 120% nos últimos três meses, sendo que o faturamento quase dobrou no período em relação a 2008. Nas revendas, o gel não pega poeira nas prateleiras. Na rede de drogarias Panvel, com 240 filiais no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, a procura pelo produto superou todas as expectativas. Entre junho e a primeira quinzena de agosto foram comercializadas 72 mil unidades do gel. Já na rede Pague Menos, 6 mil unidades de gel foram vendidas no mês de junho. No mês seguinte a procura dobrou.

Vendas do Tamiflu Triplicaram

O grupo farmacêutico suíço Roche obteve resultados expressivos no primeiro semestre com o Tamiflu, principal antiviral usado contra o vírus da gripe suína. As vendas do medicamento triplicaram em relação ao mesmo período de 2008, alcançando cerca de US$ 930 milhões. Se forem computados apenas os meses de abril a julho, o aumento é ainda mais expressivo – 12 vezes superior ao segundo trimestre do ano passado, atingindo US$ 567 milhões. Nas contas da Roche a expectativa é de que as vendas do

Tamiflu atinjam US$ 1,85 bilhão até o fim do ano. Diante dos resultados, o laboratório prevê aumentar a produção do medicamento para 400 milhões de caixas anuais a partir de 2010. A patente sobre o Tamiflu tem validade por mais sete anos.

Alternativa ao Tamiflu

Segundo médicos infectologistas, o Relenza (zanamivir), produzido pelo laboratório britânico GlaxoSmtihKline, é tão eficiente quanto o Tamiflu no combate ao vírus H1N1 e pode ser usado no tratamento da gripe suína, inclusive nos casos em que o vírus apresenta resistência ao Tamiflu. O Ministério da Saúde estuda a aquisição de lotes de Relenza para ser usado justamente em pacientes com a gripe que apresentem o vírus H1N1 resistente ao tratamento com o Tamiflu. Basicamente, a diferença entre os dois medicamentos é a forma de tomar: o Relenza é inalado e não ingerido em cápsulas como o Tamiflu.

Vacina Deverá Chegar ao País em 2010

A Organização Mundial da Saúde (OMS) prevê que a partir deste mês os primeiros lotes de vacinas contra a gripe suína deverão estar disponíveis para imunizar a população. Alguns especialistas têm criticado a pressa para se obter a vacina, sem a realização de todos os testes de segurança, o que pode trazer riscos, inclusive de desenvolvimento de alguns tipos de câncer. Os defensores da imunização rápida – para conter a pandemia – afirmam que o controle sobre a qualidade das vacinas é hoje muito mais eficiente do que três décadas atrás. No Brasil, a Fundação Instituto Butantan, em São Paulo, já recebeu a cepa (material genético) do vírus H1N1 para produção da vacina. Até o final do ano o instituto, que já desenvolve vacina contra a gripe sazonal, irá inaugurar uma nova fábrica com capacidade para 1 milhão de doses e poderá destinar parte da capacidade para produzir a vacina da gripe suína. A expectativa do instituto é fazer 30 milhões de doses e o plano é iniciar a distribuição no começo de 2010.

Febre das Máscaras

Outro produto que vende como pão quente nas farmácias são as máscaras respiratórias. Na Panvel, desde junho, a média mensal de vendas gira em torno de 10 mil unidades. Vale observar que a drogaria até dois meses atrás não comercializava esse tipo de produto. Revendedores já encontram dificuldade em repor o estoque. Além da alta demanda interna, muitos fabricantes estão exportando, o que faz sumir o produto rapidamente das revendas. Não por acaso, uma das maiores fabricantes de máscaras respiratórias, a 3M, resolveu incrementar a produção para atender o mercado interno e os países vizinhos. No final de julho, a divisão de saúde ocupacional da 3M do Brasil colocou em marcha na unidade de Itapetininga um novo equipamento que permitiu dobrar a produção de máscaras. “Toda a cadeia de suprimento de matéria-prima está alinhada com as necessidades para atender à capacidade máxima de produção”, afirma Renato Alahmar, diretor da divisão de saúde ocupacional da 3M, lembrando que é importante saber distinguir entre as máscaras comuns ou cirúrgicas e as indicadas para a gripe. Estas têm filtros especiais e sistema de vedação que retêm partículas extremamente pequenas e protegem usuários, inclusive do vírus da nova gripe. “Os respiradores certificados pela Anvisa são tecnicamente diferentes das máscaras cirúrgicas”, observa Alahmar. “O uso das máscaras cirúrgicas minimiza a contaminação do ambiente, porém não protege de modo adequado em relação às patologias, pois, independentemente de sua capacidade de filtração, a vedação no rosto é precária.” O executivo lembra que, apesar de a utilização do respirador ser mais frequente em ambientes profissionais, não há impedimento para o uso pela população em geral. A única restrição específica é para crianças e pessoas que apresentam alguma dificuldade respiratória, sendo adequada a prescrição médica.

Risco da Automedicação

Drogarias revelam também que cresceu significativamente nos últimos meses a procura por medicamentos antigripais, sobretudo os produtos com propriedades analgésicas e antitérmicas e os destinados ao alívio dos sintomas da gripe. Entre eles, estão analgésicos, descongestionantes, xaropes e anti-inflamatórios, sobretudo aqueles à base de ácido acetilsalicílico, de paracetamol e de dipirona. Não há estatísticas exatas sobre tal crescimento, mas algumas redes constataram aumento de mais de 50% nas vendas desses medicamentos. De acordo com a rede de farmácias Pague Menos, nos últimos dois meses antigripais tiveram aumento de 40% nas vendas. Na Panvel, o crescimento atingiu 30%. A automedicação é desaconselhada pelo Ministério da Saúde, mesmo porque o tratamento para a gripe suína é feito com medicamentos específicos. O uso indiscriminado e sem critério de antigripais pode mascarar os sintomas da nova gripe, adiando o diagnóstico e, por consequência, elevando o risco da doença, além de tornar o vírus H1N1 mais resistente aos tratamentos. Para desestimular a compra, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) proibiu por tempo indeterminado a propaganda de antigripais.

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